Novo estudo revela conexão biológica entre autismo e TDAH no cérebro infantil
Pesquisa publicada na Molecular Psychiatry analisou 166 crianças e identificou padrões de conectividade cerebral e expressão genética compartilhados entre autismo e TDAH, reforçando a abordagem transdiagnóstica.
Resumo em 30 segundos
Estudo com 166 crianças encontrou padrões de conectividade cerebral associados a sintomas autistas tanto em crianças com autismo quanto com TDAH.
A intensidade dos traços autistas — independente do diagnóstico formal — correlacionou-se com conexões entre a rede frontoparietal e a rede de modo padrão (default mode network).
37% das crianças com TDAH apresentaram níveis de traços autistas suficientes para atingir o limiar usado em avaliações de autismo.
Genes ligados ao desenvolvimento neural (crescimento de neurônios, formação de sinapses) estavam mais ativos nas regiões cerebrais associadas a esses sintomas.
Os resultados apoiam uma abordagem transdiagnóstica: estudar dimensões de sintomas, e não apenas categorias diagnósticas.
Uma nova pesquisa internacional publicada na revista científica Molecular Psychiatry trouxe evidências importantes sobre como autismo e TDAH podem compartilhar mecanismos biológicos no cérebro. O estudo analisou como sintomas dessas condições se relacionam com padrões de conectividade cerebral e expressão genética em crianças.
Os resultados sugerem que a intensidade dos traços autistas — e não apenas o diagnóstico formal — pode estar associada a padrões específicos de funcionamento cerebral presentes tanto em crianças autistas quanto em crianças com TDAH.
O que os pesquisadores investigaram
O estudo analisou 166 crianças entre 6 e 12 anos, divididas em dois grupos principais: crianças com diagnóstico de autismo e crianças com diagnóstico de TDAH sem autismo.
Todas passaram por avaliações clínicas detalhadas, entrevistas com os pais e exames de ressonância magnética funcional, que permitem observar como diferentes regiões do cérebro se comunicam entre si.
Os cientistas queriam responder a duas perguntas:
1. Existe um padrão de funcionamento cerebral ligado aos sintomas de autismo?
2. Esse padrão também aparece em crianças com TDAH que apresentam traços autistas?
Conexões cerebrais associadas aos sintomas de autismo
A pesquisa encontrou uma relação clara entre a gravidade dos sintomas autistas e a comunicação entre duas redes importantes do cérebro: a rede frontoparietal — ligada ao controle cognitivo, planejamento e atenção — e a rede de modo padrão (default mode network) — associada ao pensamento social e autorreferência.
Quanto mais forte era a conexão entre essas duas redes, maior era a intensidade dos sintomas de autismo, independentemente de a criança ter diagnóstico de autismo ou de TDAH.
Isso sugere que o autismo pode ser melhor compreendido como um conjunto de características distribuídas ao longo de um espectro, que podem aparecer em diferentes condições neurodesenvolvimentais.
Genes ligados ao desenvolvimento do cérebro
Além da análise cerebral, os pesquisadores também investigaram quais genes estão ativos nas regiões do cérebro relacionadas a esses sintomas.
Eles descobriram que essas áreas apresentam expressão elevada de genes previamente associados tanto ao autismo quanto ao TDAH. Muitos desses genes estão envolvidos em processos fundamentais do desenvolvimento neural, como crescimento dos neurônios, formação de conexões entre células nervosas e desenvolvimento das projeções neuronais — processos essenciais para a formação das redes cerebrais durante a infância.
Um achado importante: traços autistas aparecem também no TDAH
Um resultado expressivo do estudo foi que 37% das crianças com TDAH apresentaram níveis de traços autistas suficientes para atingir o limite utilizado em avaliações de autismo, mesmo sem preencher todos os critérios diagnósticos.
Isso reforça algo que muitos profissionais já observam na prática clínica: autismo e TDAH frequentemente compartilham características comportamentais e cognitivas.
O que isso muda na forma de entender essas condições?
Os pesquisadores destacam que os resultados apoiam uma abordagem chamada transdiagnóstica, que estuda sintomas ao invés de apenas categorias diagnósticas.
Em outras palavras: duas pessoas com diagnósticos diferentes podem ter mecanismos cerebrais semelhantes, e compreender dimensões de sintomas pode ajudar a desenvolver tratamentos mais personalizados. Essa abordagem pode ajudar a explicar por que muitas pessoas apresentam traços mistos de autismo e TDAH.
O que isso significa para famílias e profissionais
Embora a pesquisa ainda esteja em fase de avanço científico, ela traz implicações importantes: reforça que autismo e TDAH não são condições totalmente separadas; mostra que traços autistas podem aparecer em diferentes perfis neurodivergentes; e sugere que avaliar os sintomas de forma dimensional pode melhorar o diagnóstico e o suporte clínico.
Para famílias, isso ajuda a entender por que crianças com TDAH podem apresentar características típicas do espectro autista — como dificuldades sociais ou interesses intensos.
Referências Científicas
- Segura, P. et al. (2025). Connectome-based symptom mapping and in silico related gene expression in children with autism and/or attention-deficit/hyperactivity disorder. Molecular Psychiatry. DOI: 10.1038/s41380-025-03205-8.
